A IGREJA

1. O QUE É UMA IGREJA

Cristo, O Verdadeiro Templo

Na introdução ao Ritual de Dedicação de uma Igreja, pode ler-se, logo no início: «Pela sua morte e ressurreição, Cristo tornou-se o verdadeiro e perfeito Templo da nova Aliança e realizou a união do povo adquirido por Deus» (Rdi 1).

Cristo é realmente a verdadeira morada de Deus entre os homens, o «lugar onde podemos encontrar a Deus, pois n'Ele «habita corporalmente toda a plenitude da divindade» (Col 2,9).

A Igreja, prolongamento de Cristo, também ela templo de Deus.

«Este povo santo, congregado na unidade que procede da unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, é a Igreja, templo de Deus edificado de pedras vivas, em que o Pai é adorado no Espírito e em verdade» (ibidem).

Pedro escreve: «Vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo» (I Pe 2,5).

A palavra «Igreja»

«Por isso, com razão se chama também 'Igreja' ao edifício em que a comunidade cristã se reúne para ouvir a palavra de Deus, orar em comum, frequentar os sacramentos, celebrar a Eucaristia» (ibidem).

A Igreja, edifício material e mistério espiritual

A finalidade primária de uma Igreja é, sem dúvida, abrigar a comunidade cristã, nela reunida para celebrar o culto divino. A oração da Dedicação do altar retoma a antiga tradição de chamar ao templo cristão a «casa da Igreja» isto é, a casa em que a Igreja se reúne, dando assim a entender claramente que a Igreja é primariamente assembleia da comunidade cristã.

Recordemos no mesmo sentido as passagens de S. Paulo; «Saudai a Igreja que se reúne em casa deles (Prisca e Áquila)» (Rom 16,5); «a assembleia (= Igreja) que se reúne em casa deles (Áquila e Prisca) vos saúda» (I Cor 16,19).

Mas, «por isso mesmo que ela é um edifício visível, esta casa é sinal particular da Igreja peregrina sobre a terra e imagem da Igreja que já vive no céu» (Ib 2).

2. O ALTAR, CENTRO E CORAÇÃO DA IGREJA

O mistério do altar

O altar tem também, como a Igreja, uma função primordial, de ordem prática , que é a de servir, como mesa, para a celebração da Eucaristia, tal como, na última Ceia, a mesa em que Jesus a instituiu: «Chegada a hora, encontrava-se Jesus com os Doze à mesa...» (Mt. 26,20;cf. Mc 14,18; Lc 22,14).

Mas a Eucaristia não é uma refeição vulgar; é a «Ceia do Senhor» ( ICor 11,20).

Daí que o altar é mais do que simples mesa de refeição, mesmo de uma refeição de carácter mais ou menos religioso, como foram os ágapes da antiguidade cristã.

A mesa do Senhor

O altar é a «mesa do Senhor» (I Cor 10,21). O Ritual da Dedicação do altar explica a expressão com as seguintes palavras: «Cristo Senhor, ao instituir o memorial do sacrifício que havia de oferecer ao Pai no altar da Cruz, sob a forma de um banquete sacrificial (a Eucaristia), tornou sagrada a mesa em volta da qual os fiéis se haviam de reunir para celebrar a sua Páscoa. O altar é, por isso, a mesa do sacrifício e do banquete, na qual o sacerdote, representante de Cristo Senhor, faz o mesmo que o próprio Senhor fez e entregou aos discípulos para eles fazerem em memória de Si» (Rda 3).

Desde o momento em que Cristo instituiu o sacrifício sacramental da nova Aliança, a Eucaristia, em forma de banquete, a Ceia do Senhor, deu valor de altar à mesa em volta da qual os cristãos se reúnem para o celebrar.

«Mesa do sacrifício e do banquete pascal» do povo da nova Aliança, o altar é objecto sagrado por excelência do culto cristão, pois, como continua o Ritual, citando S. Paulo: «O cálice de bênção, que nós abençoamos, não é comunhão de Sangue de Cristo? E o pão que nós partimos não é comunhão no Corpo de Cristo?

» ( I Cor 10,16 ).

O altar, sinal de Cristo

«Os antigos Padres da Igreja, meditando na palavra de Deus, não tiveram dúvida em afirmar que Jesus Cristo é a vítima, o sacerdote e o altar do seu próprio sacrifício.

De facto, na Epístola aos Hebreus (Hebr 4,14; 13,10), Cristo aparece como o grande pontífice e, ao mesmo tempo, como o Altar vivo do templo celeste». (Rda 1 ).

«O facto de no altar se celebrar o memorial do Senhor e se distribuir aos fiéis o seu Corpo e Sangue levou os escritores da Igreja a verem nele como que um sinal do próprio Cristo; daí se originou a afirmação tradicional: O altar é Cristo». (Ib 4). Com razão, pois, se olha o altar como sinal de Cristo.

O cristão, também ele um sinal espiritual

As coisas materiais, como as acções exteriores, sobretudo na liturgia, levam-nos sempre a uma significação mais profunda dessas mesmas coisas e acções. E é, de facto, o espiritual que, em última análise, quer ser atingido.

Por consequência, «como Cristo, Cabeça e Mestre, é o verdadeiro altar, também os seus membros e discípulos são altares espirituais, nos quais se oferece a Deus o sacrifício de uma vida vivida em santidade. Os próprios Padres da Igreja parecem ter querido significar isso mesmo: Assim... S. Policarpo admoesta as viúvas a que vivam santamente, porque «são altares de Deus»... E S. Gregório Magno: «Que é o altar de Deus, senão a alma dos que vivem bem?... Com razão, pois, se diz que o coração dos justos é um altar.» Ainda segundo outra imagem frequente nos escritores da Igreja, os cristãos que se entregam à oração, que oferecem a Deus as suas preces e que imolam a vítima das suas súplicas são pedras vivas, com as quais o Senhor Jesus edifica o altar da Igreja (Ib 2).

O altar como monumento

Daqui se depreende que o altar, para além da sua finalidade prática, tem também uma significação espiritual. Sendo a mesa sobre a qual se celebra o memorial do Senhor, ele é também, em certo modo, um memorial, um monumento. O altar lembra o sacrifício do Senhor, evoca o próprio Cristo, é uma recordação permanente da Aliança selada, para sempre, entre Deus e os homens, pelo sacrifício da cruz, que o altar constantemente renova de modo sacramental. Não é somente objecto útil, necessário para a celebração da Eucaristia; é também sinal evocativo e significativo da Aliança entre Deus e os homens, que a Eucaristia celebra, pelo que podemos também considerar como monumento.

O altar fixo

É esta significação espiritual, permanente, que introduziu, desde muito cedo, o costume de implantar nas igrejas o altar, como coisa fixa. «O altar diz-se fixo, e está construído de maneira que adere ao pavimento e não pode, por isso, ser removido; se se pode remover, diz-se móvel». «É conveniente que, em todas as igrejas, haja um altar fixo; nos outros lugares destinados às celebrações sagradas, um altar fixo ou móvel» (Rda 6).

O ser fixo, portanto permanente, facilita que se olhe para ele, mesmo fora da celebração, como lugar sagrado, o tal monumento, de que acima se falou; diante dele os fiéis poderão evocar a Aliança eterna, que da parte de Deus nunca mais será interrompida, porque Cristo, de quem o altar é sinal, está sempre vivo junto do Pai, para interceder por nós (cf. Hebr 7,25); aí recordarão a Eucaristia celebrada noutros momentos, na qual essa Aliança se renova e serão assim estimulados a maior e mais constante fidelidade.

O altar de pedra, símbolo de Cristo, pedra da Igreja.

«Seguindo o costume recebido na Igreja e o símbolo bíblico inerente ao altar, a mesa do altar fixa deve ser de pedra, e de pedra natural» (Rda 9). Assim, mais facilmente se olhará para o altar como símbolo de Cristo, que S. Paulo identifica com o Rochedo, do qual Moisés fez jorrar a água (Ex. 17,1 sg): «O rochedo era Cristo» (ICor 10,4).

O próprio Senhor Jesus se apresentou como sendo «a pedra rejeitada pelos construtores e que se tornou a pedra angular»(Mt 21, 42; Lc 20, 17; cf Act 4,11; Rom 9,33 ).

Assim como no Antigo Testamento, Deus é chamado «Rochedo de Israel» (SI 17,3; 94,1), assim agora, no Novo Testamento, Cristo é o rochedo da sua Igreja.

Esta exigência no entanto, não é fundamental, pois «pode ser utilizada outra matéria digna, sólida e artisticamente trabalhada, a juízo das conferências Episcopais, para construir o altar» (Rda 9).

A quem se dedica o altar

«Por sua própria natureza, o altar é dedicado só a Deus, dado que o sacrifício Eucarístico só a Deus é oferecido. Neste sentido se deve entender o costume de a Igreja dedicar altares a Deus em honra dos Santos. S. Agostinho exprime assim com exactidão essa ideia: 'Não erguemos altares a nenhum mártir, mas somente ao Deus dos mártires, ainda que nas memórias dos mártires'. Seja isto claramente explicado aos fiéis. Nas novas igrejas, não se coloquem representações ou imagens dos Santos em cima do altar» (Rda 10).

3. DEDICAÇÃO DA IGREJA

Sentido da dedicação

A Inauguração de uma Igreja faz-se com uma celebração litúrgica, em oração: «A minha casa é casa de oração», disse Jesus. (Mt 21,33; Mc 11,17; cf. Is 56,7).

A Dedicação é um rito pelo qual o povo dedica a Deus a nova Igreja. Dedicação é, portanto, neste sentido, o mesmo que consagração a Deus, oferecimento feito a Deus da nova Igreja. Mas, ao mesmo tempo, ela é também o rito no qual pedimos a Deus que a nova Igreja com o seu altar sejam para nós o lugar onde O possamos encontrar a Ele na sua palavra, na oração, nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, e onde nos encontremos uns com os outros como Igreja que somos, povo santificado, corpo de Cristo místico, morada do Espírito Santo.

A celebração da Eucaristia, elemento principal da Dedicação

A celebração da Eucaristia «é a parte mais importante e mais antiga de todo o rito» da Dedicação. Por isso, a celebração da Eucaristia está justíssimamente inerente ao rito da dedicação da Igreja:

- pela celebração do sacrifício eucarístico atinge-se e manifesta-se por sinais claríssimos o fim para que a igreja foi edificada e construído o altar;

- além disso, a Eucaristia, que santifica o coração dos que a recebem, consagra, de algum modo, o altar, como mais de uma vez afirmaram os antigos Padres da Igreja: «Este Altar é digno de admiração, porque, se, por natureza, é uma pedra, torna-se santo, depois que recebeu em si o Corpo de Cristo», (S. João Crisóstomo);

- finalmente a ligação estreita que une a Dedicação da Igreja com a Eucaristia aparece também no facto de a Missa da Dedicação ser enriquecida com um Prefácio próprio, em íntima ligação com o rito» (Rdi 17 ).

Daqui resulta que a Dedicação da igreja e a celebração da Eucaristia não são

celebrações diferentes, mas sim a mesma celebração , que tem o seu centro e o seu vértice na celebração da Eucaristia. Nela consiste essencialmente a Dedicação da igreja com o seu altar. É aliás, o altar, lugar da celebração da Eucaristia, que é objecto de mais atenções em todo o rito de Dedicação da Igreja.

4. OS DIVERSOS LUGARES NA IGREJA

Tal como a Assembleia litúrgica imagem local da Igreja, Corpo de Cristo, é una no seu conjunto, mas diversificada nos seus membros, a cada um dos quais compete uma função própria, assim também a Igreja, é una no conjunto do seu espaço, enquanto casa da Igreja, mas, ao mesmo tempo, diversificada nos diversos lugares que a integram, porque destinados a funções diferentes.

São estes os principais lugares da igreja, cuja significação convém ter presente:

-1.º Lugar da presidência - donde o presidente, o Bispo ou, o seu delegado, o presbítero, cabeça da assembleia, preside a toda a celebração como sinal de Cristo, enquanto Cabeça da Igreja.

Não longe deste, os lugares para os concelebrantes.

- 2.º Lugares para os diáconos e ministros - que hão-de desempenhar os diversos ministérios na celebração e que normalmente se situam perto do lugar da presidência, nas imediações do altar.

- 3.º Lugar para os fiéis leigos - na nave ou naves da Igreja, eventualmente também em tribunas, que não hão-de criar a ideia de espaços distintos da nave, mas onde a parcela da assembleia que aí estiver se possa facilmente considerar na continuidade da que está na nave.

- 4.º Lugar para o coro ou grupo coral - situado no espaço da assembleia dos fiéis, e à frente deles, não longe do altar, visto que o coro faz parte da assembleia, da qual é um grupo, diferenciado apenas pela sua função própria, que é a de dialogar com a assembleia, ou reforçar o canto desta, ou, excepcionalmente, interpretá-lo, substituindo-a, se aquela, por qualquer razão, não puder cantar. Ao lodo do coro, o lugar para o organista ou outros instrumentistas. E ainda o lugar do director do canto, tanto do coro como da Assembleia.

- 5.º O altar - «mesa do sacrifício e do banquete pascal», sinal por isso do próprio Cristo, «centro da acção de graças que se realiza pela Eucaristia» (MR), lugar normalmente inamovível (altar fixo, condição para poder ser dedicado). O altar deve ser único na Igreja, como único é o sacrifício que nele se celebra. Se for necessário qualquer outro altar secundário, seja colocado fora da nave da Igreja (MR). Perto do altar, os castiçais para as velas.

- 6.º O ambão - lugar da proclamação da palavra de Deus, lugar geralmente também fixo. A estante será apenas a maneira de obviar a ausência de ambão. Daí se proclamam as leituras, o salmo responsorial e o precónio pascal. Pode também ser proferida daí a homilia e a oração universal dos fiéis. Mas não é o lugar para o director do canto nem para qualquer condutor da assembleia. Junto ao ambão, o círio pascal.

- 7.º O baptistério - Lugar da Celebração do Baptismo e, eventualmente, reservatório da água baptismal.

É normal que seja situado em frente da assembleia. Se o baptistério ficar longe do ambão, o círio pascal, fora do Tempo Pascal, estará no baptistério.

- 8.º Lugar para a sagrada Reserva Eucarística - que é ideal tenha um espaço próprio, mesmo numa capela própria, articulada com a Igreja, lugar nobre e bem sublinhado, não demasiado distante, que facilite a oração por parte dos fiéis e a ela convida.

A Reserva Eucarística destina-se primariamente a dar a comunhão como Viático aos moribundos, e ainda a pessoas que não puderam estar presentes na celebração da Missa, e, consequentemente, proporcionar também aos fiéis a oração diante do Santíssimo Sacramento, no prolongamento da celebração da Missa, em continuidade com ela.

Junto do sacrário, a lâmpada.

- 9.º Lugar da celebração privada da Penitência - em forma de confessionário ou outra prevista, consoante a forma que a celebração revestir.

- 10.º Lugar para imagens - nos sítios mais oportunos, onde «não desviem a atenção dos fiéis da celebração» (MR), nunca sobre o altar (Rda 10).

Antes de todas as imagens, a cruz, ou o crucifixo, requerido para a celebração, sobre o altar ou perto dele.

«Não haja mais de uma imagem do mesmo Santo» (MR).